Quarta de Cinzas

by Roy Frenkiel 24. fevereiro 2009 13:31

Nos campos de trabalho forçado da maldosa Alemanha Nazista jazia a placa em destaque a quem enxergasse dizendo: “O trabalho liberta” (Arbeit Mach Frei). Visto que o trabalho dos prisioneiros resumia-se a transportar pedras volumosas sem a menor direção ou sentido, começo a paródia em nota triste para a alegria de meus leitores e leitoras.O trabalho liberta? Não, queridos e queridas, não liberta, eu quero é o carnaval!

Carnaval que rima com escambau, que rima com Blumenau e outros “aus” a “als” perdidos pela vida. O que realmente importa é a plenitude de nossos seres, nossa capacidade de rejubilar sem a menor necessidade ou motivo, nossa amplitude dos sentidos quando paramos para pensar e nos deixamos sentir. Sempre tivemos, lá do Gan Ananda, a teoria de que jovens ouvem música no volume máximo para não precisar sentir absolutamente nada. Ou, sendo o nada absoluto, logo que não conste a redundância, imponho-me com o mote a seguir: Há pessoas que ouvem música barulhenta e anti-melódica ou festiva-embriagada (vide ebrifestiva) para não precisar ouvir, jamais, aos próprios batimentos cardíacos. Há pessoas, em contraponto, que convidam a alegria para não precisar deixar de senti-la.

E esse, ou este, não seria o carnaval? Já lendo os que são contra e os que são a favor, como se alguém lhes tivesse perguntado, lembro-me da charge de Son Salvador, querido do finado Reação Cultura (ou do Pasquim, para quem se lembra), que em Belo Horizonte usava o mote “Eu Amo BH Radicalmente” para simbolizar como se sentia vivendo em uma cidade sem desfiles e alegorias, onde quem farreia e cai na folia simplesmente desaparece a litorais ou outros cantos mais favoráveis. E nós, digo, os cucarachas, os imigrantes, como ficamos nessas, se em Miami o carnaval e o Dia da Toupeira Adormecida dão na mesma?

Nada de funerais. O carnaval é folia mesmo, é farra, é esbórnia e é o escambau em Blumenau com ou sem o meu aval. Bem, bom mesmo é em Salvador, onde o carnaval sempre começa, mas nunca termina. São Paulo, Rio de Janeiro... E para o Son Salvador, cartunista bravo, jovem dos velhos, Belo Horizonte também, por que não?

Afinal, e é onde quero chegar, no carnaval brasileiros curtem férias, um momento de descanso, algo que poucos de nós, batalhadores excessivos, temos tempo a curtir. Não nos resta fôlego aos finais de semana, nem para queimar aquele churrasco longinquo ou conhecer pessoas novas. Seria nestas praças que o churrasco é feito de salsichas e a cerveja toma-se quente e choca? Ou não seria?

Pois, o carnaval, alem de libertar-nos do trabalho que nunca liberta, mata a charada a pauladas mecânicas em seu cerne místico. Para quem não entende o significado do carnaval, eis sua explicação fictícia aos olhos do doido que vos ludibria:

A data, em si, não diz muita coisa. O que nunca desdiz, contudo, é que a alforria da escravidão surge como princípio básico da celebração. A escravidão era, em alguns pontos, semelhante ao que faziam com os judeus no império nazista. Os trabalhos, a lavoura, a colheita, tudo era fruto de escravos e produto de seus patrões. Nem o negro nem o judeu servia em seu melhor estado. Não lhes davam a regar seus talentos da prática das águas malodoras. Privavam-lhe as posses, mesmo aquelas nascidas dos úteros de suas mulheres. O carnaval celebra e força a liberdade de escravos modernos. E, hoje, tempos que se incentiva a criatividade individual sobre a monotonia das especializações ultra específicas, a zona do carnaval ainda se estende a exemplificar a criatividade.

Afinal, escravo livre após tantos anos de mandado sabe pouco de como conseguir o que muitro quer. Todos sabem dançar o samba do criolo doido, e nisso eu me incluo sem vergonha. Mas nesse samba, da liberdade, da pausa, do cessar fogo da robotização exigente da sociedade, muitas vezes afloramos e deixamos de trabalhar. Começamos, então, a criar e recriar. Uns com seus negócios pequenos, outros com suas invenções, outras com sua exatidão, sua matemática ou arte, cada qual com seu universo e caos particulares.

Nessa farra, nos livramos da rigidez. Nos libertamos da escravidão da psique, no stress de nossos nervos e músculos. Sei que não estamos no Brasil, mas talvez há muito a se aprender dessa alegria sem sentido. Quem sabe nela não encontramos a face que melhor aceita nossos sorrisos?

“Carnavalismo já!”

RF

“O Brasil é o país do futuro. (E sempre será)” Frase do escritor Stephen Zweig

by Roy Frenkiel 30. janeiro 2009 13:13
Os tempos mudam, sempre, renovando-se e repetindo-se, é verdade, mas também avançando. Não só a tecnologia nos refaz humanos, menos animais do que nossos antepassados, mas principalmente as novas descobertas, os novos estudos, a evolução do pensamento. Tampouco mudam radicalmente. É sempre paulatina, mas real e imediata, a transformação e transmutação de nossa espécie.

Por um lado, Zweig estava certo. O futuro que o Brasil tem e o que quer representar é tão vagaroso que, às vezes, passa desapercebido. A seriedade do povo brasileiro não transparece a todos os olhares, e para quem vem de fora, há algo de selvagem no comportamento tupiniquim. Só que, como em tudo, os maiores defeitos encarceram-se nos olhos de quem enxerga, e não na visão em si.



Vivendo um mês em Belo Horizonte, descobri que a genialidade brasileira é ímpar, tanto quanto a necessidade das galhofas, da vida social e da cerveja de botequim. Os maiores poetas eram e ainda são boemios, mas não só falo de poetas, escritores, intelectuais ou, pios, pseudo-intelectuais mascarados por trás de seus anos acadêmicos. O que vi nesse mês me demonstra o quanto podem, como povo, como raça, como nação, revirar as disparidades sociais e mazelas mentais que o Brasil, como muitos países mundo afora, ainda carrega em fardo às costas.

O homenageado há duas semanas, Dr. Frenkiel, tem uma frase que acredito mais do que apropriada para expressar o que quero: “Quando dão de comer a um brasileiro, ninguém segura.” Acrescento, “quando dão o que ler também”, e quando escrevo “o que ler”, refiro-me não só à Bíblia, mas livros literários, ficção científica e didáticos, especialmente.

Por quatro semanas, a cada uma delas conhecia alguém que se formara ou se formava. O porteiro do prédio do psiquiatra que se formara em agronomia. A clínica geral que se formara no interior de Minas Gerais. A senhora que estudou metalurgia, e acabou desenvolvendo métodos de redução do rejeito em energia nuclear em 95 por cento. O senhor que fez-se advogado. O editor de jornalões que sabe mais sobre o holocausto do que eu ou qualquer um de meus parentes judeus, sendo ele tudo, menos judeu. A maestra pianista, reconhecida nacionalmente. A repórter que virou editora geral em alguns poucos anos. O pequeno gênio que sabe muito tanto de informática quanto de música e mal chegou à puberdade. O quase cirurgião, amante de Sylvester Stalone. Nenhuma dessas formações pode ser ajeitada. Ou você aprende, ou não é, e acabou.



Não faltou genialidade. Não me pareceu que o Brasil precisasse de nós, imigrantes formados em terras estrangeiras, para tocar o próprio país adiante. Claro que também observei corrupção e violência, desigualdade e burocracias desnecessárias, mas o movimento do Brasil é, mais do que nunca, para frente. E o Brasil tem uma vantagem única: Mete-se em tudo, é temperado por tudo, fala sobre tudo, é a terra, de fato, de todos os santos e demônios, de todas as santas e putas, de todos os curandeiros e feiticeiros, reais ou imaginários. Pegam o jazz e fazem a bossa-nova. Fazem caipirinha da vodka e limonada.

Confesso estar encantado, mas a partir destas últimas férias, aposto no Brasil. Se eu fosse você, apostaria também. Chega de “sempre será”.



RF

“Becoming” (Transformações)

by Roy Frenkiel 23. outubro 2008 11:11
É com enorme orgulho que notifico aos meus leitores e leitoras que ganhei meu primeiro prêmio literário em Inglês (vide foto).



Hoje, diante de aproximadamente 50 pessoas, seguido do presidente do North Campus, Dr. José Vicente, e outros oficiais de alto escalão da faculdade comunitária do Miami Dade, aceitei o prêmio e li o texto “Becoming” (Transformações), publicado na revista Axis, obra que reúne talentos fotográficos, artísticos e literários.

A competição organizada pela FCCAA (Florida Community Colleges Activities Association, Division of Publications) engloba 28 faculdades do estado da Flórida. Ganhei o terceiro lugar na categoria de poesia e textos poéticos com as obras “Becoming” e o poema “Faceless Dead” (Mortos Sem Face).

Segue abaixo o texto, em Inglês, para que quede de lembrança virtual.

Agradeço, de coração, O Miami Dade College, a professora Lisa Shaw, e todo o departamento de Inglês da faculdade. Agradeço também à FCCAA pela tremenda oportunidade. E, não podia deixar de agradecer aos meus leitores/as, amigos/as, família e amada. Que seja o primeiro de muitos, diriam, e digo eu.

Aos abráx,

RF

Becoming

Slowly, but suddenly, I realized that not only my clothes, my perfume and my shoes were becoming, but I was becoming as well. An inevitable transformation transformed every inch of my body into me, but I as I remembered had not always been who I am now. The sound of a perfect North-American accent persuaded my ears that I was American, and American I became for that single instant. But instants tend to vanish.

Amidst the cold, sweet breeze of New York, the paleness of my brown skin became. The sunny skies became intrinsic with the darkness inside my eyes, and I could see brighter horizons. In and throughout the flaps of my kitschy shirt and around the woolen fabric of my cheap scarf, the linen became. Everything about the person that had been me for the past twenty-seven years became. Even if it became what it simply was.

When the sidewalks narrowed and the beach intertwined with the long, shredded, sandy passages, my heartbeat became Floridian. The toeless sandals and the baggy Hawaiian mimicked my tourist habits, even though I don’t know how to be, and never was, a tourist. Las Olas broke and kissed the cheeks of my feet, and the pleasant, soothing, flashy tropics became. I became the tropics.

Roy Frenkiel

I remember the soft rains of São Paulo, and I remember intact memories, untouched by time’s frailty. Time struggles against the smell of the gutter, rising and spreading throughout broken knees of homeless mothers carrying thousands of hungry children in their warm laps. The cold, then, becomes my bones as they bake inside my skin and puff and grow and become who I am, even if I do not want to remember who I was. And when I think of it, the trains were always rapid and the nights were never black, but I can feel the spastic tracks and several mulattos greeting me in sheer happiness. I don’t remember the metallic texture on the pistol that crushed my forehead, but I do know the sound of the subsequent apology:

“Your curse is my curse, sir. I am so sorry to have to rob you for a piece of bread or a huff of crack.”

Does anyone really describe the texture of a pistol when there is an apology to depict? At that moment, the apology became, and I became the apology. A crying, angry stomach lied before me, and suddenly...

I became the breeze that shook the palms of Sunny Isles, and saw them eaten in parsimony by tall, concrete buildings. I saw the view deteriorate at the brick pace and “rah-ta-ta’s” that perturbed my ears on a daily routine. They also became. My eardrums became accustomed to the sound of natural destruction. I became an angry witness of a disappearing habitat for the sunshine beach in the sunshine state. Instead, the shadows are becoming, and I became the shadows just to see the bathers perpetuate a paleness that no longer dwelled within me.

Roy Frenkiel

In the round-about circus of the Kikar Ben Gurion, in Israel, I became the lonely audience of the movie theaters, watching inexistent characters perform on screen. The rusty boy who sold cigars in Russian became. I became the lazy woman in high heels, who waited an hour to cross the street, just until the police removed the unidentified object from under the bench on the other side. It could have become a bomb.I think of natal lands, and I become the conqueror of foreign lands that become mine. When I try to grasp the meaning of what I become, it becomes a memory. I begin to remember it only to realize, suddenly and slowly, that I am now becoming someone else.

“Mr. McCain said, ‘The whole premise behind Senator Obama’s plans are class warfare — let’s spread the wealth around’.” (The New York Times)

by Roy Frenkiel 22. outubro 2008 11:29
Quando comecei a escrever sobre as eleições presidenciais nos Estados Unidos, ao início do ano, pensei que o tema principal seria a guerra no Iraque e Afeganistão, a abstrata “guerra ao terrorismo” de George W. Bush, e alguns temas sócio-moralistas como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O preço do galão de gasolina escalava, e encontrava-se próximo do que pagamos em média atualmente, após declínio ríspido na bolsa de valores estadunidense. A preocupação se propagava ao preço dos alimentos. Aos poucos tornou-se quase o triplo do que antes era.

O preço da energia elétrica também aumentou, devidamente, e o condado passou a cobrar mais pela água e outros serviços sanitários.

Em minha faculdade, a pizza que ao fim de 2007 custava $1.75, agora custa $2.65 dólares. A aula que custava $180, agora custa mais de $300 dólares. No restaurante à esquina de meu escritório, a refeição custava $6.50, mas já subiu a $8.35 dólares. Antes da Lehman Brothers falir, e antes mesmo do resgate já extendido a Fannie Mae e Freddie Mac; muito antes da bolsa de valores despencar pela instabilidade bancária, todos aqueles que partilham de minha realidade econômica sentiam a crise profundamente em suas vidas. Se ao final do ano passado, quando a gasolina passava a custar ¢50, $1, $2 dólares a mais, as pessoas já tinham dificuldade de arcar com o compromisso das altas e instáveis hipotecas, no início de 2008 “os fundamentos de nossa economia” só demonstravam sinais de falência.

Quando uma companhia multi-nacional decide se mudar para países com menores tarifas tributárias, assim levando empregos para nações que também “odeiam os Estados Unidos”, quem sofre não são, obviamente, os CEO’s, os empresários, os donos das ações, mas sim os empregados. Estes, que também sofrem quando menores companhias deixam de lucrar e passam a cortar sua força trabalhista. Em outros casos, como no meu, queridos e queridas, a companhia simplesmente corta dias da semana de cada empregado. Exceto o fato de que aqui os dois ocorreram, tanto o corte de empregos, quanto o corte no salário dos trabalhadores que restaram.

E esse sofrimento se espelha justamente na inabilidade popular de arcar com os preços das hipotecas, ou carros, ou ambos, e claro que, nesse sentido, para bancar com os próprios atrasos, a inabilidade se espalha ao cartão de crédito que, resumindo, trata-se também de verduras e legumes e ursinhos carinhosos.

Então, vejamos:

O terceiro e último debate presidencial foi o melhor, segundo analistas. Eu não o vi, confesso. Ao invés disso, assistia a Canarinho caminhando de um lado para outro em um campo grande e esverdeado, aparentemente acompanhando o jogo dos colombianos uns contra os outros, especialmente quando jogadores do mesmo time se cabeceiam ao alto.

Porém, assisti alguns argumentos, logo a reprise de grande parte da discussão entre os candidatos republicano e democrata, e as análises da MSNBC e CNN, além do artigo recente no The New York Times.

A frase que, para mim, resume o que deveras é considerado e tratado como o tema central dessas eleições, a economia, está postada acima.

“McCain disse, ‘Toda a premissa por trás dos planos do Senador Obama é guerra de classes – espalhemos a riqueza [por toda a nação]’.”

Essas palavras me remetem imediatamente à cena que testemunhei ontem quando visitei minha ex professora de escrita criativa, Lisa Shaw, enquanto dizia a um aluno que ele não podia sequestrar a aula falando de propostas econômicas liberais como se tivesse o conhecimento e a experiência necessários para tanto.

“Eu posso concordar contigo,” disse Shaw, “o que não significa que a maioria da nação não discordará de ti, e você não tem o cacife para professar uma teoria econômica, e mesmo se tivesse isso não faria a menor diferença, as pessoas não querem ouvir de ninguém, ‘você pagará pela minha educação, pela minha saúde, pelo meu bem estar mesmo se eu estiver desempregado’. As pessoas querem cuidar da própria vida, de suas propriedades, e ninguém quer saber de ser forçado a contribuir com o resto da sociedade, isso é automaticamente taxado de comunismo.”

Shaw tem razão. O país não elegeria Bush duas vezes caso não tendesse a concordar com esse raciocínio, que não deixa de ser válido, só deixa de ser capitalismo. Mas esse nem é o maior problema. Bush também venceu duas vezes porque, conforme diz Rachel Maddow, democrata e âncora da MSNBC, “o sistema eleitoral é partidário, e os democratas têm duas opções, a primeira é ofender-se e exigir mudanças, a segunda é atuar partidariamente e reformar as leis eleitorais”. Os motivos para descartar novos eleitores multiplicam-se com a aproximação do 4 de Novembro, enquanto cá nos situamos.

Mesmo assim, esse não é o maior problema.

Os chavões atráem a mente de cidadãos comuns. Respondi a Shaw que esse movimento da “direita” do país não é racional, não faz sentido, é baseado em sentimentos. Baseio meu raciocínio no fato de que as pessoas não têm a menor idéia do que o “DOW” significa, mas todos querem que o “DOW” feche em alta, mesmo que o preço da gasolina esteja diretamente ligado a essa alta, e que aumente caso a bolsa começar a lucrar demais. Na mesma nota, há pessoas pedindo o fim do chamado Tributo Mínimo Alternativo, que já foi bloqueado e que pode tornar-se permanente a partir de 2009, mas esse tributo só atinge pessoas que ganham mais de $250 mil dólares anuais, e quem reclama ganha menos de $40 mil.

Ainda acredito, espero que não ilusoriamente, que o país procura, de fato, mudanças concretas em sua filosofia. Também acredito que a força liberal e democrata é crescente, o que significa que há mais pessoas deixando de pensar com o lado esquerdo, e menos deixando de pensar com o lado direito do cérebro.

Contudo, a filosofia central da nação nos últimos anos foi de redistribuição de verbas, sem a menor dúvida, só que “para cima” na pirâmide social. Os poucos ricos ficaram mais ricos, e os muitos pobres ficaram mais pobres. Todos sabem onde a classe média tende a parar nessa roleta russa.

Aqui sim, consta o maior problema. As pessoas votam contra seus interesses econômicos, conforme disse Barack Obama há alguns meses atrás. Apóaim-se nas armas (emenda constitucional defendida por republicanos), e em outros temas moralistas como, justamente, o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. As classes menos abastadas, menos educadas, e mais centradas geograficamente, o que as distancia de imigrantes e variações culturais e os aproxima da base tradicional da nação, votam constantemente a favor de cortes tributários que jamais os beneficiarão.

Por que isso ocorre?

Posso opinar, mas eu, também, não tenho cacife para determinar uma circunstância, portanto julgue-o quem quiser, como quiser, de acordo com seus próprios critérios.

Para mim, isso é baseado em uma guerra que tornou-se não só entre a esquerda e a direita, mas entre uma filosofia que é basicamente socialista, e outra que não passa de pseudo-capitalista. Esclarecendo, e para quem me conhece isso pode ser evidente, discordo da premissa socialista que dá ao estado a autoridade sobre os projetos de desenvolvimento social. Porém, mesmo entre os esquerdistas intelectuais mais extremos, o indivíduo de menor poder está mais propenso a receber atenção social do que seu oposto. Já entre o clássico direitista, o estado é o demônio (concordo, em grande parte), o dinheiro a “mim” pertence, mas desse dinheiro nada nasce, nada cresce, nada se reproduz para a sociedade que não empregos muitas vezes medíocres com sub-salários, sub-benefícios e sub-futuro.

Há exceções, e assim sendo, mais do que se imagina. A maioria, contudo, comporta-se além do capitalismo de Adam Smith. O máximo ao qual conseguem agarrar-se é a economia de Ronald Reagan, que projetava prosperidade às classes menos abastadas através do fortalecimento das mais abastadas. Apesar de não sermos árvores, acredito que a metáfora é válida. Seria como fortalecer a árvore pelas folhas. Ninguém, contudo, quer efetivamente dar do seu dinheiro a investir em projetos sociais necessários, mesmo que concordem com a importância dos mesmos, e odeiem pagar impostos.

Assim sendo, como poderemos chegar ao século 21 sem a mentalidade do século 18? Continuaremos discutindo sobre o preço de nossa civilização, atribuindo culpas, farpas e pizzas a outros que não nós mesmos. Continuaremos pensando que o dízimo apazigua nossas culpas. Esse sim é o maior problema: Quando a sociedade é contra a redistribuição de verbas aos mais necessitados, mas favorece fervorosamente o redistribuição de verbas aos que causam grande parte das necessidades.

Obama, para mim, vence apenas por comparecer ao debate. Ainda assim, não representa a solução evolucionista necessária. 

RF

There Goes My Hero (Texto ao dia dos pais nos EUA)

by Roy Frenkiel 17. junho 2008 02:13

(Texto originalmente publicado N'A Escolha do Proximo Porteiro.)

Planejei mudar o tema central de meu blog, ou melhor, centralizar-me no único tema das eleições ao invés de escolher assunto a esmo, porque quero pela primeira vez "fazer parte" de algo maior do que eu, de uma sociedade, ser aliado ao país que me hospeda e não correr contra a maré e o mundo. Ainda acredito que isso não seja conformismo. Meus maiores ídolos pertenceram ao “main stream” marginal nas sociedades que os acolhiam.



Mais do que isso, estudando jornalismo cada dia procuro minha afinidade ao desenvolvimento da carreira de meu futuro, e encontro na política, repentinamente, um campo vasto e delicioso a se explorar. Regozijo quando leio, ouço nas rádios ou assisto em noticiários tudo que diz respeito a esse tema. E acaba sendo o tema que mais me interessou desde pequeno sem que conseguisse atar a noção de uma sociedade aos atuais padrões políticos.

Para melhor escrever sobre todos os aspectos que aqui vejo reportados em suma, assisto dois principais canais voltados à política nos Estados Unidos diariamente. Todas as manhãs assisto a MSNBC e a CNN, mas majoritariamente a primeira há algum tempo, por uma criada preferência, facilmente detectada pela maior menção de seus comentaristas em meus textos.

À tarde, novamente, são os programas da CNBC e MSNBC que mais exploro, porque refletem opiniões baseadas em mais profundos fatos do que sua rival. A CNN é mais superficial em suas matérias, e a NBC ganhou fama por ser a primeira a declarar a importância do estado da Flórida em 2000, na disputa presidencial entre George Bush e al Gore. Também foi a primeira a fazer o campo de Clinton compreender que não venceria as primárias.

A pessoa responsável pela apuração politica dos variados programas da rede, como Hardball, com Chris Mathews, Countdown, com Keith Olbermann, Verdict, com Dan Abrams, Morning Joe, Race for the White House e os demais segmentos politicos apresentados por outros veteranos do jornalismo e da política nacionais, como Pat Buchanan, Andrea Mitchell, Tom Brokaw e Mika Brezinsky, foi ninguém menos do que Tim Russert.

Russert tinha 58 anos, originalmente advogado, iniciou sua carreira jornalistica como voluntário em campanhas políticas de senadores e assessor de imprensa do ex-governador de NY Mario Cuomo, o que elevou sua capacidade de questionar adversários e aliados na busca de seu mais completo conhecimento. Destronou o candidato democrata Bill McBride ao governo da Flórida contra o republicano Jeb Bush por perguntar-lhe algo ao qual o democrata não respondeu integralmente. Seu método de entrevista no programa Meet the Press, da NBC, era o mais temido, respeitado, justo e equilibrado, fora do alcance da concorrência, à qual politicos e outros jornalistas em Washington eram especialmente preparados.

Todos os convidados sabiam que as perguntas seriam sinceras, diretas e duras, mas sempre haveria todo o tempo do mundo para a resposta, que quanto mais completa, melhor satisfaria a curiosidade implacável do jornalista e executivo.

Para a revista Times, Russert foi uma das 100 personalidades mais influentes do planeta, mas para mim Russert passou a ser recentemente uma espécie de coluna dorsal invisível. Digo invisivel, porque eu apenas lia o resumo do Meet the Press, e pouco escrevi aqui a respeito de seus comentários, ou ao menos, atribuindo a informação à fonte política absoluta da NBC.

Porém, quando me pediram para melhor explicar a rivalidade entre democratas e republicanos, usei a analogia dos estados azuis (democratas) e vermelhos (republicanos), uma analogia que Russert inventou. Apesar de contar os delegados pela CNN, soube com Tim Russert primeiro que Hillary Clinton não alcançaria Barack Obama à nomeação. Com uma pequena lousa branca, Russert rabiscava estados e seus números e fazia o impossivelmente complicado parecer fácil. O rabisco mais importante do jornalismo contemporâneo é o que demonstrou a Tom Brokaw em 2000 quando explicava que apenas a Flórida faria a diferença na corrida entre Al Gore e George Bush. A lousa dizia: “Flórida, Flórida, Flórida.

Além disso, e isso é além e sobreposto a qualquer outro aspecto de nossas vidas, Tim Russert era pai orgulhoso de Luke, e filho de Big Russ, relação que lhe rendeu dois livros dos mais vendidos nos últimos anos, o primeiro sobre seu relacionamento com Big Russ, e o segundo baseado nas milhares de cartas que recebeu dos leitores do best seller sobre os mais variados relacionamentos paternos. Nascido em Buffalo, NY, Russert era fanático pelo time regional de futebol americano, os Buffalo Bills, e sempre mencionava suas raízes quando apresentava o Meet the Press, bem quando comentava constantemente nas demais dezenas de programas da rede NBC e suas filiais.

Era uma fonte inesgotável de conhecimento, e conversava de igual para igual com qualquer figura política da nação. Barack Obama cofundiu o nome de Matt Lauer, do Today Show, pelo nome de Tim Russert, de tanta preparação à entrevista no Meet the Press e a pressão que representava em sua campanha, antecedendo o encontro com Lauer em algumas semanas.

Às vésperas do dia dos pais nos Estados Unidos, Russert não sobreviveu para continuar fisicamente criando seu filho, seguir orgulhando seu pai e guiando os demais jornalistas, queimando a mentira da política na jornada às eleições presidenciais de 2008. Não há rival ou amigo que não concorde que, sem Russert, a cobertura das eleições não será a mesma. Keith Olbermann, o liberal radical, quetionou-se: “O que deixaremos de saber sem Russert aqui?” Pat Buchanan, ex postulante à presidência pelo partido republicano, disse algo como: “Quem viu, viu, quem nunca viu, não verá mais.”

Havia tempo que não sentia tanto pela perda de uma personalidade pública. Faz-me pensar e projetar o amor que sinto por meu próprio pai, que há dez anos faleceu de modo quase identico. Esse texto ao dia dos pais é dedicado a todos os que nos inspiram, nos ensinam, e nos guiam paternalmente pela escuridão da vasta noite criada às sombras do mundo cão. É dedicado a meu tio, e a todos os que me inspiraram a crescer intelectualmente, e a me interessar nos maiores quadros das situações mundiais. Esse texto é para Tim Russert. Que em paz descanse.

RF

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